Sejam bem-vindos a este espaço todos os músicos e amantes de música. De boa música. Agradecemos a divulgação tanto por parte dos leitores como das bandas que nos visitem. E a todas as bandas que queiram ser aqui divulgadas/lembradas/relembradas - comuniquem! (e-mail em "contactos" ).
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quarta-feira, 13 de julho de 2011

EVEREVE - "Regret" - 1999


EVEREVE
"Regret"
1999 / Nuclear Blast

Tive a sorte de escutar e saborear este trabalho na época apropriada – precisamente em 1999. Se fosse agora, talvez não tivesse tido a sorte de viver este álbum com os sentimentos e sensações que sentia naquele tempo (quem me acompanhou sabe do que estou a falar).

Os dois álbuns anteriores de estúdio (“Seasons” de 1996 e “Stormbirds” de 1998) são ambos trabalhos geniais de Gothic/Doom Metal, que já receberam honras neste espaço. Mas, este “Regret” dos germânicos EverEve não é um trabalho como os anteriores.
Em primeiro lugar, a grande alma do grupo cometeu suicídio; logo após as gravações do “Stormbirds”, o vocalista Tom Sedotschenko terminou a sua vida e deixou um trabalho lindíssimo tanto no “Seasons” como no “Stormbirds” (se o escutarem as músicas e lerem as letras talvez entendam o que sentia Tom Sedotschenko). Neste “Regret” a voz ficou a cargo de Benjamin Richter e que deu uma outra vida ao instrumental dos EverEve. Nada tendo havendo com a voz de Tom, Benjamin mostra um timbre de voz que muito aprecio e que o coloca mais perto do Rock do que do Doom. Ao nível instrumental, os músicos deixaram de lado as depressões do Doom e do Gótico para dar lugar a um saudável Metal com melodias fortes e ritmos contagiantes – embora ainda se possa ouvir acordes muito semelhantes ao “Stormbirds”. Destaco os teclados discretos, e dou valor e importância ao ritmo das músicas; ritmo esse que é trabalhado pelo baixo e pela bateria – a comunhão é perfeita ao ponto de parecer que a música está “viva”. No seu todo, “Regret” sugere sentimentos ora de raiva, ora de contemplação majestosa proporcionada pelo bom sentido de melodia, como no caso da música “Kolyma”. O momento mais Metal está na música “Dies Irae (Grave New World)”, onde todos os elementos EverEve estão conjugados. Destaco, também, a versão que fizeram da música “House Of The Rising Sun” dos The Animals. Está bastante rock e com a letra alterada e adaptada.

A banda de um ano para o outro transforma a sua sonoridade, que na minha opinião esteve muito bem. Mas, para grande pena minha, esta mudança não se manteve e os EverEve caíram nas malhas do Industrial Gothic (ou como a banda preferiu chamar: CYGOROME – Cyber Goth Rock Metal); e verdade seja dita, a qualidade não os acompanhou porque deixaram-na no “Regret”. Uma verdadeira pena, porque tinham todas as qualidades para comporem outros trabalhos com verdadeiro interesse, como foram os primeiros três álbuns de estúdio.

Para terminar, dou os parabéns à banda por terem feito um trabalho tão contagiante e com tanta vida e sentimentos. Foi realmente um álbum importante na minha vida.

Deixo para ouvirem a faixa mais forte (a meu ver) do álbum: “Passion And Demise”.
Nesta todos os elementos estão unidos e em sintonia para darem consistência e abertura ao tema da música – deste o ritmo, os arranjos ambientais, a letra, a voz ora sibilante ora enraivecida, e o peso apropriado nas partes que merecem… isto está carregado de feeling – fica comigo para sempre.





POST-SCRIPTUM:

The sweet draught of lick-her (liqour)
Runs gently over my tongue
A feast of wicked pleasure
Is the delight of sweat and blood

The seed of a lost morality
As you sow, so shall you reap
A beast of pray (prey) I am

Trapped in a human abattoir

Now we drift away
Into a proud act of violation
Flesh captures flesh

As we deluge in self-accusation

The seed of...

To copulate means to umiliate
And I tremble within your thighs
I devastate emotional ground
What I adore, I despise
I rape your soul and suck you out
'Til I look into frightened eyes
I'm a prisoner between your legs

In a vicious game of passion and demise

The sweet draught of...

Together we rise, divided we fall
Caressed by the inno-scent (innocent)

I praise the holy whore...

Passion and demise

quinta-feira, 7 de julho de 2011

PECCATUM - "Strangling From Within" - 1999

PECCATUM
"Strangling From Within"
1999 / Candlelight Records

Em 1998 os Emperor andariam a promover o “Anthems To The Welkin At Dusk”, e Ihsahn, um Sr. que não se contentava apenas com o culto do Black Metal dos Emperor, juntamente com a sua esposa Ihriel estavam a dar forma a um conceito arrojado que se chamaria Peccatum. O irmão da Ihriel, Lord PZ, vocalista dos Source Of Tide, junta-se ao projecto para em Novembro de 1999 lançarem a curiosa estreia intitulada de “Stragling From Within”. Todo o conceito esteve na mente da mulher de Ihsahn, e este e o seu cunhado deram a ajuda necessária para que as ideias dela se tornassem uma realidade.

http://www.myspace.com/peccatum
Arrojado é um bom adjectivo para caracterizar a estreia dos Peccatum, mas também se podem aplicar outros, como vanguardista, experimentalista, teatral… obra de arte! O avant-garde está presente por ser especialmente experimentalista e diferente de tudo o que Ihsahn até então tinha lançado. Não esperem escutar o que ouviram nos Emperor ou nos Thou Shalt Suffer. Há aqui uma base muito teatral e até diria dramática, como se estivéssemos a escutar uma peça de teatro (logo a abrir o “pano” irão escutar a “Where Do I Then Belong?” onde todos os elementos teatrais estão presente; e até surge um cravo que dá um toque medieval bastante interessante). Este aspecto tem que ver com as vozes que todos os elementos de Peccatum projectam. Ihsahn e Lord PZ dão alma à face épica deste trabalho, com vozes sonantes e fortes, por vezes guturais, que nos faz imaginar os gestos se de uma peça de teatro se tratasse. Já a voz de Ihriel é dramática o suficiente para imaginarmos uma ópera. A característica de soprano está presente, mas ela teve a arrojada ideia de se tornar dissonante. Não pensem que ela não sabe cantar, ou que desafina. Nada disso! Ela sabe muito bem cantar, mas quis distanciar-se do clássico soprano para se situar no contexto que criou; imaginem algo de fantasmagórico, ora 3 tons acima do instrumental, ora 3 tons abaixo do mesmo. Parece que está tudo fora da frequência que se desejaria, mas a verdade é que é tudo em nome da arte – por sinal, o álbum termina com uma ovação à arte, uma composição brilhante e arrepiante e que encaixa muito bem no final do trabalho.
Esperem, por fim, momentos dissonantes que fazem tremer o ouvido habituado às harmonias clássicas. O recurso a elementos orquestrais também está presente, mas não são a glória deste álbum. Além disso, os instrumentos da orquestra são programadas e a sua linha de composição é bastante simples – nada de muito elaborado (excepto o tema “An Ovation To Art”, que está uma obra prima). A bateria é igualmente programada, o que faz com que o álbum tenha perdido um significativo toque orgânico. Seria muito mais grandioso se sentíssemos um baterista humano. Assim sendo, a glória vai, claro está, para o trabalho da guitarra do Ihsahn, que nos dias que correm é identificada após o terceiro tempo da música (este compositor já criou um estilo próprio, ou não tivesse ele uma banda com o nome dele).


POST-SCRIPTUM:
Para estreia não está nada mal. Todos os temas são significativos e interessantes, e não cansam o ouvido. E tendo em conta ao contexto da época, o mercado não estava assim tão saturado ao ponto de não permitirem mais uma banda deste género. Contudo, parece que os Peccatum não tiveram assim tanta projecção nos ouvidos do seio metaleiro e só talvez mais tarde eles tenham sido escutados. Um álbum que fica para a história da banda, mas, como veremos brevemente, não está aqui o esplendor do colectivo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

EVEREVE - "Stormbirds" - 1998

EVEREVE
"Stormbirds"
1998 / Nuclear Blast

“...So we have left behind the ceaseless change
the ceaseless change of Seasons,
embittered by the inevitable maelstrom
that draws us towards the fields of winter
where crows burst out in their scornful cries.
And our eyes fall on the realm of much prouder
but neverthless even sadder creatures
the realm of the Stormbirds...”


O Metrónomo tem o prazer de apresentar o sucessor do “Seasons”, obra prima da banda germânica EverEve. Já data de 1998, mas este “Stormbirds” merece o prometido destaque, tal como mereceu o antecessor, pelas mais nobres razões que o Metal possa evocar.
“Stormbirds” inicia onde o “Seasons” terminou, da tristeza do Inverno surgem criaturas fantásticas numa tempestade de pássaros.
“Fields Of Ashes” é a glória do álbum. A abertura esplendorosa e grandiosa espalha força e pode despertar sentimentos adormecidos… realmente não há palavras para descrever tamanha força… aumenta-se o volume e a sensação de poder é imensa. Tom Sedotschenko consegue com a sua voz expelir o que sente de uma maneira genuína… sente-se, mesmo!
Na totalidade do álbum, a voz deste Sr. é um destaque. Tom ora berra e grita, ora canta, ora sussurra, tudo muito bem conjugado com o instrumental e genialmente colocado no momento certo. A relação com as letras é impressionante, e a comunhão lírica com o instrumental é perfeita. Assim, a voz e o instrumental é soberba! Neste “Stormbirds” há temas rápidos, lentos, enérgicos, contemplativos… uma mão cheia de música que só se encontra neste trabalho. “…On Lucid Wings”, precedida pela “Escape…”, é um tema bastante mais lúcido, por assim dizer, que o “Fields Of Ashes”, com uma energia distinta, para logo depois sermos carregados com um peso e um fardo só conseguido por esta banda. “Martyrium” é pesado espiritualmente. Um poema escrito na língua alemã, o Grand Piano, sons orquestrais conduzidos por Jean-Pierre a sugerirem una depression - mas no fundo, lá no fundo, os EverEve querem mostrar algo de belo. Momentos depois um tema rápido e agressivo, “The Downfall”, contrasta com o negro e o martírio e vem dar outro andamento ao álbum. Contúdo, este trabalho é de altos e baixos, pois ora temos um tema up-lift (ilusório, mas pelo menos “mexido” – porque lá no fundo todo o trabalho é uma neurose do vocalista) como um tema que nos deita por terra. “Dedications” é mais uma prova de que o conteúdo lírico é rico e recomenda-se – uma dedicatória única. E “Stormbirds” é a densidade deste trabalho – instrumentalmente bonito, num andamento Doom, o tema desperta paisagens que a letra sugere. E quando isso acontece, é porque algo de especial estamos a ouvir.
Na recta final do álbum, a banda reserva alguns temas que merecem destaque: “Spleen” é um deles, por ser um tema totalmente tocado em Grand Piano, pelo genial teclista da banda, Michael Zeissi, e sussurrado por Tom - e por ser inspirado num poema com o mesmo nome, de Charles Baudelaire, retirado da sua obra “Les Fleurs Du Mal”. Já a terminar, “Stormbirds” dá-nos um valsa, “Valse Bizarre”, que se pode dançar mas que tem o toque EverEve (neurótico, digamos).



POST-SCRIPTUM:
Como já devem ter percebido estamos perante um álbum com um nível de autenticidade fora do normal. Definir o que é EverEve nos seus primeiros lançamentos é uma tarefa ingrata, e a banda não merece rótulos nem normalidades. “Stormbirds” distingue-se pela sua musicalidade, pois em todos os temas podemos reter algo de especial. E não esquecer a perfeita comunhão com as letras. Para terminar, esta obra fechou o círculo depois do suicídio do vocalista, que morreu no dia 1 de Maio de 1999. O trabalho dele pode ser ouvido e apreciado para sempre.

domingo, 21 de novembro de 2010

ULVER - "Shadows Of The Sun" - 2007


ULVER
"Shadows Of The Sun"
2007


"The Sun is far away
It goes in circles
Someone dies
Someone lives"

Normalmente escrevo sobre álbuns que vou ouvindo regularmente, sem uma data específica ou sem qualquer motivo aparente, optando por um e não por outro dependendo da minha vontade e disposição. A abertura para novas viagens sonoras é frequente, mas muitas vezes faço regressos ao passado pelo simples prazer de recordar não só a sonoridade mas também as experiências que tive oportunidade de viver no contexto dessa sonoridade. Nesta categoria existem alguns, muito poucos e raros, que só lhes dou a liberdade em épocas específicas do ano. Razão? Por só fazerem sentido nesse momento da Roda do Ano.

www.myspace.com/ulver1
O caso que vos trago é o não tão distante “Shadows Of The Sun”, dos noruegueses Ulver. Obra-prima lançada no primeiro dia de Outubro de 2007, e que tomou a alma de muito ouvintes o restante ano.
“Eos”, o tema de abertura, espalha o ambiente taciturno que o trabalho em 40 minutos vai esculpir. Este primeiro acto é tão poderoso e envolvente na sua substância, que a nossa mera gramática não consegue adjectivar ou descrever para além do “sublime”. Eles até poderiam ter feito um tema sobre culinária que não destruiria a sumptuosidade desta abertura. “Eos” é um doce círculo porque várias vezes regressamos a ele… é o desaparecimento de qualquer luz.
Quem nunca ouviu os mais recentes trabalhos de Ulver e estão a aventurar-se nesta viagem, fiquem com a ideia que a segunda “vida” dos Ulver é desprovida de elementos Metal. Não significa que tenham perdido qualidade. Pelo contrário – os ambientes que criaram optimizaram os uivos destes lobos noruegueses. Assim, na mesma linha de “Eos”, podem esperar um segundo tema sem guitarras com distorção. “All The Love” é a continuação da falta de fôlego ao ponto de pensarmos se restará mais alma para aguentar tais texturas. Destaque para o trompete que dá uma certa sobriedade ou uma certa decadência ao tema, dependendo do ponto de vista e da alma que estiver a escutar. O trompete pode também ser ouvido noutros temas. Uma boa aposta neste trabalho.
“Like Music” tem talvez a passagem mais tenebrosa mas ao mesmo tempo mais bonita do álbum – o início lindíssimo não dá qualquer imagem de como o tema termina… e termina de um modo único. Uma comunhão perfeita entre o som e a letra.
De seguida temos outro ponto alto deste trabalho que adivinha o Inverno. “Vigil”. Fiquem com ela e irão perceber a dificuldade que tenho de escrever sobre estas sombras do Sol.


A taciturnidade e beleza discorrem por todo o álbum, como as aveludadas “Shadows Of The Sun” e “Let The Children Go”.
Somos também brindados com uma curiosa cover da música “Solitude”, dos Black Sabbath. Se pensam que o Heavy Metal está presente aqui desenganem-se, porque esta cover é fiel ao ambiente de todo o álbum – com um trompete a brilhar num breu total.
Já para o fim a “Funebre” traz mais um brilho da noite. O título indica muito do que se pode esperar. “A flight of ravens / Into the sunset”.
“What Happened?” fecha o trabalho de um modo arrepiante, mas gera a vontade de regressar ao início. “Out of Nothing / I understand / Who I am”.

"Under the Moon
The wolves gather"

POST-SCRIPTUM:
“Shadows Of The Sun” é uma entidade que só a solto em Novembro. Um pedaço de nostalgia, carregada de ambientes electrónicos e texturas melódicas que são quase palpáveis – graças ao trabalho de um quarteto de cordas. Outros músicos estão também de parabéns por terem deixado o seu contributo nesta obra de arte – já para não falar de Kristoffer Rygg e companhia que mais parecem monges a oferecerem-nos uma experiência mística. Para me acompanhar até a primeira flor nascer.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Jethro Tull - Thick as a Brick



E se o som característico de uma banda – que já destilou blues/Jazz, Folk Rock, Rock Progressivo/Conceptual, Synthesizers e Far East nos seus álbuns – fosse o som de uma Flauta? Não especulemos, tal assinatura existe e numa Banda, cuja qualidade não deixa espaço a argumentações, apreciem-se ou não, os Jethro Tull são uma referência no meio musical pela imprevisibilidade e genialidade das obras que têm criado ao longo dos mais de 42 anos de actividade.

Da formação inicial da banda britânica – que remonta a 1968 em Blackpool - já só resta Ian Anderson, a voz, a Flauta e a força criativa. Em 1969 entra o guitarrista Martin Barre, que se mantém até hoje na banda em substituição de Mick Abrahams – guitarrista que abandonou os Jethro Tull em diferendo com Ian Anderson. Uma curiosidade em relação a Martin Barre prende-se com o facto de ter sido escolhido através de uma audição que contou com a presença de Tommi Iommi, guitarrista, que mais tarde se tornaria célebre na banda de Ozzy Osbourne, os Black Sabath.

Os actuais membros dos Jethro Tull são: David Goodier no baixo, Jonh O´Hara nas teclas, acordeão, piano e orquestração e Doane Perry na bateria e percussão.






Debrucemo-nos agora sobre Thick as a Brick, um álbum que é, definitivamente, Rock Progressivo. Lançado em 1972, é o primeiro na história do Rock a ser composto por apenas uma faixa musical que ocupa os dois lados do Disco. São cerca de 42 minutos de música, onde as constantes variações de tempo da faixa e as diferentes influências musicais vêm ao de cima como se de uma peça de música Clássica se tratasse. Este registo da banda de Ian Anderson, leva o Rock para lá do registo normal de canção de curta duração e abre uma nova abordagem sobre a construção e estruturação de canções.

Durante os 42 minutos de duração do álbum, é possível distinguir traços e influências Jazz, Folk e Rock numa teia complexa, mas agradável. Liricamente, é uma obra fortemente metafórica, que pela duração do instrumental, – longo e complexo – se torna impossível de taxar. Este é um daqueles discos – como todos – que fica aberto à interpretação pessoal e à disposição de cada qual. Característica que se apresenta como irrefutável é a ironia e um certo humor negro que cerca toda a envolvência da obra, incluindo o design gráfico de Thick as a Brick. O álbum vinha acompanhado de um suplemento de 12 páginas chamado “St. Cleve Chronicle” , uma espécie de Jornal que tinha como objectivo parodiar o estilo de jornalismo praticado localmente, jornalismo que ainda hoje se pratica em locais menos populosos. Um aspecto curioso deste suplemento, é o de ter sido escrito pelos membros da banda e de estes terem criado uma capa onde atribuem a uma criança de 8 anos a autoria do poema de Thick as Brick. Infelizmente os custos de impressão levaram ao cancelamento do suplemento, substituído por um mais curto.







Post-Scriptum:

Em actividade desde 1968 os Jethro Tull são hoje mais do que uma banda, são uma lenda viva do Rock, cujos álbuns, profundamente eclécticos, ajudaram a reinventar. A banda já lançou 21 álbuns de estúdio, todos eles obras muito interessantes, Thick as Brick destaca-se pelo único, pela teatralidade, pela originalidade das ideias e sentimentos que nele habitam.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Spheric Universe Experience - Anima



Anima, é o segundo cd do grupo Spheric Universe Experience, uma banda francesa de Metal progressivo. Tanto musicalmente, como do ponto de vista da produção, Anima é uma extensão lógica, do seu antecessor, excepto por ter algumas músicas mais rápidas e mais pesadas.

Evidencia-se uma influência de grandes nomes do prog metal, como Andromeda, Dream Theater, Fates Warning, Symphony X . Esta latente o gosto pela música clássica, fusão, power metal e jazz.

Anima é composto por onze canções, quase 68 minutos de um prog metal esplêndido. O álbum inteiro contém vozes gravadas em Francês, Inglês e Espanhol. Todos os membros da banda fizeram um excelente trabalho, jogando com as alterações de ritmo, e fazendo uma coordenação impressionante.

De realçar o piano clássico e a orquestração magnífica por Fred Colombo, um teclista de topo, que cria uma atmosfera fantástica. Ranko é tão rápido, e quase são imperceptíveis as mudanças no ritmo da bateria. Franck é um vocalista original, com uma voz forte e melodiosa, cantando com um sentimento maravilhoso. João mostra que pode fazer com seu baixo de seis cordas notas e sons maravilhosos, e por último Vince no seu melhor na guitarra.

As partes instrumentais do álbum são mais longas, caracterizadas por uma poderosa mistura de guitarra e teclado.

Fred Colombo encanta, quando extrai todos os tipos de barulhos peculiares do seu teclado, utilizando elementos modernos de synth e jazz puro. Na abertura, com"Sceptic", injecta uma moderna linha de sintetizador .
Franck Garcia não é tão agressivo quanto à voz neste álbum como era antes, chega mesmo a ter tons bem baixos. Tem na minha opinião uma voz cativante. Começando com a melancólica "Beeing ", a banda oferece uma boa dose de Dream Theater como base de inspiração a nível instrumental.

O teclista rouba a atenção na breve "Stormy Dome", liderada por um piano melódico com uns arranjos de cordas lindos - há também uma doce voz feminina cantando uma melodia sem palavras claramente em segundo plano.

No "World of Madness", com uma intro de Colombo foca-se o teclado, e Garcia também canta de forma diferente aqui, ele vai de frágil sussurrar para um cantar juntamente com os coros até gritos crescentes.

Importante notar é que praticamente todos os membros tem contribuído para a escrita das letras, de modo que Anima é, certamente, um esforço da banda,

Anima é certamente uma forte adição na discografia de Spheric Universe Experience. Para ouvir e ouvir.

01. Sceptic
02. Being
03. The Inner Quest
04. Neptune's Revenge
05. Stormy Dome
06. World of Madness
07. End of Trauma
08. Heal My Pain
09. Questions
10. The Key
11. Black Materia



Post Scriptum: As duas músicas que eu mais gostei deste álbum são " End of Trauma " e " The Key ", em parte porque elevam as linhas de baixo muito acentuado de João DraI, são canções com uma consciência rítmica intensa, melodias arrebatadoras, teclado e guitarra intensivas e ataques vocais cheios de energia.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

EVEREVE - "Seasons" - 1996


EVEREVE
"Seasons"
1996

Quem não conhece uma banda alemã com o nome de EverEve, que deu os seus primeiros passos na década de 90 com um split, duas Demos e este fabuloso “Seasons”? Não conhecem? Então façam o favor de explorar o início desta banda que praticava um som bastante pessoal – nem Gothic nem Doom, estando algures no meio destes estilos.

Em 1996 dão à luz o seu longa-duração de estreia, o qual deu que falar para os que tiveram curiosidade (ou sorte) em ouvir o “Sesons”. Desde a capa a sugestivos títulos, este álbum teria tudo para ser poderoso – e realmente é! Contudo, como os gostos são meros juízos particulares, decerto que houve quem não apreciasse a sonoridade da banda, talvez pelo facto dela não se limitar a um estilo e criar a sua própria sonoridade – sonoridade esta que teve o culminar máximo no sucessor do “Seasons”, o poderosíssimo “Stormbirds”, de 1998, e que terá honras neste blogue.

http://www.myspace.com/evereve
Tal como o título sugere, “Seasons” é um álbum que explora um conceito – o ciclo das Estações do Ano. Mas, todo o álbum é muito mais que uma mera exposição deste tema – é uma descarga emocional dos sentimentos sugeridos por cada parte do ciclo. Portanto, muito mais que físico (sonoro), é um trabalho espiritual onde os sentimentos estão “à flor da pele”, ou a banda não tivesse o misterioso vocalista (que já não está connosco – suicídio após o “Stormbirds”) Tom Sedotschenko.

O álbum abre com a “Prologue: The Bride Wears Black”, como um pronuncio do que o álbum nos reservará. A sonoridade melódica envolve o ouvinte através da genial comunhão da voz com o instrumental – uma comunicação musical que progride a níveis arrepiantes!
“A New Winter” apresenta a vocalista de serviço que tem uma excelente qualidade para ler pequenos excertos, que insere ainda mais alma ao trabalho. Esta senhora aparecerá mais vezes no “Seasons”, e acaba por ser um factor importante na dinâmica do álbum. De notar que a letra está em alemão – aspecto peculiar nos EverEve, que tanto exploram o inglês como o alemão. De resto, “A New Winter” é um riff simples que abre as portas à Primavera.
“The Phoenix / Spring” é um tema poderoso onde variam as vozes guturais com as melódicas. O instrumental é singularmente melódico e atmosférico, onde os teclados nos envolvem.
“The Dancer / Under A Summer Time” é, talvez, a passagem mais poderosa deste ciclo. Começa com a excelente narração de um excerto igualmente excelente. Surge um ritmo forte de guitarra que acompanha um piano que nada mais é que um prelúdio à fabulosa melodia que a música nos reserva. Momentos envolventes e momentos de pura descarga de energias. Esta é simplesmente uma música fabulosa, com uma finalização incrível e carregada de feeling. Fiquem com ela:


“Twilight” é uma ode ao Outono… arrepiante!

"First leaves touch the ground
Shadows are to be our company
An age draws near
In which days die away, die softly
When the light dwindles
When the curtain falls
The sun is conquered
Grey veils cover the world
And our hearts vanish the void"

“Autumn Leaves” é o culminar do Outono. Uma música lindíssima, carregada de Doom e com uma melodia cantável. Simplesmente arrepiante e recomendável, onde o vocalista emprega uma voz completamente aplicável ao ciclo outonal.
“Untergehen und Auferstehen” é um faixa brilhante que explora sentimentos “depressivos”, de desfalecimento e de ressurgimento. Como o trabalho da banda é brilhante, tanto a voz como o instrumental é adequado a essa temática. Comprovem vocês mesmos!
Depois da “To Learn Silent Oblivion”, que é uma passagem para o final do ciclo, surge o Inverno em toda a sua glória – “A Winternight Depression”. A associação do Inverno à depressão tem muito que ver com a própria natureza do Inverno; contudo, de certeza que nem todos os ouvintes associarão à tão conhecida depressão que os humanos sofrem. Esta é uma depressão artística, onde tanto o belo como o horror se confundem. Um tema belo que remete o ouvinte para um panorama de reflexão.
O ciclo termina com um “Epilogue”
“And buried under eternal ice
There lies the soul and cries
Has to nourish, to refresh
On our being`s darkness - nothingness.”



POST-SCRIPTUM:
Estamos perante um trabalho espectacular. Aos que desconheciam espero ter-vos gerado a curiosidade de conhecerem este álbum. Aos que já conhecem espero ter promovido uma boa recordação – é tempo de tirar o pó ao CD. “Seasons” poderá ter passado despercebido na segunda metade da década de 90, mas significou muito para quem o ouviu. Um álbum que ficará para sempre; um ciclo (um ritual) interminável.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Pink Floyd - The Dark Side of The Moon

Pode não ser o expoente máximo do Rock denominado por Progressivo/Psicadélico, mas este álbum dos Pink Floyd seria - sem dúvida - como é ainda hoje, uma viagem ao mais sombrio recanto do Ser Humano no ano do seu lançamento, 1973. Ao oitavo registo de estúdio a banda Inglesa, por esta altura já órfã de um dos membros fundadores o guitarrista e letrista Syd Barrett – incapacitado devido a doença mental – e substituído por David Gilmour cria a obra que projectará para o mainstream o até à altura submundo de um estilo musical complexo e desconhecido projectando bandas como os King Crimson, Genesis, Jethro Tull, Yes e Soft Machine.


Gravado nos estúdios londrinos de Abbey Road, The Dark Side of the Moon é por si só, retirando toda a envolvência lírica ao álbum, uma obra sonora inovadora. Nas gravações foram usadas várias técnicas à época consideradas futuristas como o uso de uma mesa com 16 pistas quando na altura só se gravava com 4 ou 8, uma mistura usando o sistema quadraphonic que permite a audição das músicas naquilo que hoje é conhecido como sistema surround 4.0 e adicionados ao som tradicional da banda os sintetizadores que ajudaram a construir texturas sóbrias e espaciais, quase etéreas.


Gilmour, Waters, Mason e Wright são os obreiros desta obra monumental e intemporal. O álbum divide-se em duas partes; a primeira é composta pelos temas Speak to Me/ Breath, On the Run, Time e The Great Gig in the Sky. A segunda parte é composta pelas faixas Money, Us and Them, Any Colour You Like, Brain Damage e Eclipse.

No lado A do disco podemos encontrar uma reflexão profunda sobre a vida, sobre o Tempo, sobre as escolhas, frustrações e consequências de um quotidiano que nos absorve silenciosamente e do qual nos arriscamos a libertar somente na Morte. E o exemplo destes conflitos, destas paranóias humanas, da angústia, pode ouvir-se na voz de David Gilmour na primeira faixa do álbum “…Breath in the air, don´t be afraid to care, live, but don´t leave me, look around, choose your own ground…” , angústia igualmente patente no terceiro tema “ …and then one day you find, ten years have got behind you, no one told you when to run, you miss the starting gun…”.

O lado B é dedicado ao dinheiro, à guerra, à alucinação e loucura. Nesta face do disco explodem as guitarras e o saxofone num frenesim de morte e prazer. Na faixa Money, o hit single com a assinatura de tempo mais estranha da música moderna, ouvimos o dinheiro a cair na registadora, uma linha de baixo simples e David Gilmour a assinar um solo memorável. E quando a viagem parece iniciar uma espiral de alucinação eis que surge Us and Them para mostrar que afinal a alma humana pode ter salvação.

Curvemo-nos sobre Gilmour, Waters, Wright e Mason, que no longínquo ano de 1973 criaram uma obra que enche o ouvido, a alma e o Mundo.


Post-Scriptum:
Richard Wright faleceu 2008 e deitou por terra a já ténue hipótese de uma reunião dos Pink Floyd. David Gilmour segue uma bem sucedida carreira a solo. Roger Waters actua em Portugal em 2011 e recriará o The Wall, um dos melhores momentos em termos musicais da banda, mas um dos piores pela tensão que no seio da mesma imperava e que havia levado à saída de Richard Wright. Nick Mason segue sem baquetas em parte incerta.
The Dark Side of The Moon é o começo, o término, ou apenas mais um marco na viagem. A cada um cabe escolher por onde começar a discografia da banda.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Unknown Pleasures- Joy Division





Unknown Pleasures é um álbum extasiante, inovador e único. É o álbum de estreia da banda inglesa de pós-punk , Joy Division, gravado em Abril de 1979 no Strawberry Studios, em Stockport.

A capa do álbum foi desenhada por Peter Saville, que iria passar a fornecer a artwork para os futuros álbuns de Joy Division. Mas foi Bernard Sumner quem deu a ideia de colocar a figura usada na capa, que representa a morte de uma estrela captada por um medidor de pulsos.

É conhecido que o Post-Punk britânico presenteou o mundo com excelentes bandas, mas Joy Division é um nome à parte, que influenciou e influencia bandas até os dias de hoje.

Ter linhas de baixo impecáveis era um ponto generalizado das bandas do género, porém o resultado de Unknown Pleasures está num nível acima do resto. O trabalho com a guitarra é louvável, a valorização do baixo nas músicas , e o vocal catársico de Curtis, culminam numa atmosfera tensa e depressiva , numa das melhores músicas do disco, “Interzone“.

Faixas
1. "Disorder" - 3:36
2. "Day of the Lords" - 4:43
3. "Candidate" - 3:00
4. "Insight" - 4:00
5. "New Dawn Fades" - 4:47
6. "She's Lost Control" - 3:40
7. "Shadowplay" - 3:50
8. "Wilderness" - 2:35
9. "Interzone" - 2:10
10. "I Remember Nothing" - 6:00



Integrantes

• Ian Curtis – vocais, guitarra em "I Remember Nothing"
• Bernard Sumner – guitarra, teclados
• Peter Hook – baixo, segundo vocal em "Interzone"
• Stephen Morris – bateria, percussão

Post Scriptum: Na contracapa do LP, consta a frase "Isto não é um conceito, é um enigma". Um álbum que aconselho a quem ama a música, mesmo que o género musical não seja o preferido.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

CRYPTOPSY - Blasphemy Made Flesh - 1994


CRYPTOPSY
"Blasphemy Made Flesh"
1994

Os anos ’90 foram “a praia” do Death Metal. Cannibal Corpse, Carcass, Deicide e outras já lutavam pelo seu espaço, enquanto outras tentavam brutalmente alcançar os ouvidos dos mais thrashers metaleiros. Até que em 1993 surge uma demo de uma banda oriunda do Canada, e que deve ter deixado alguns norte americanos de queixo caído. Os Cryptopsy lançam cartas com a demo tape “Ungentle Exhumation”. Um ano depois surge a estreia em CD – “Blasphemy Made Flesh”.


“Blasphemy Made Flesh” é um murro bem assente na cara! É o que um álbum de Death Metal deve ser: Brutal! Mas a brutalidade destes Canadianos em 1994 é carregada de glamour, como se a brutalidade fosse algo de bem feito e com requinte. E de facto se ouvirem o trabalho agora em 2010, não deixam de acenar com cabeça e afirmar a categoria destes canadianos. Logo a abrir a brutalidade manifesta-se pelos instrumentos muito bem dominados pelos quatro músicos de serviço. Ao longo do trabalho poderem esperar riffs de guitarra pesados, rápidos e soltos – o som é bastante “arejado” e não abafado, como caracterizou alguns dos trabalhos dessa época. Aliás, a produção tem características muito interessantes. As guitarras e o baixo estão num segundo plano, deixando o primeiro plano para a bateria e o vocalista. Quase diria que este álbum é uma lição de bateria para quem se quer iniciar no Death Metal. Flo Mounier parece uma máquina, e ao mesmo tempo consegue largar pitadas de feeling no seu processo criativo. Mas “Blasphemy Made Flesh” pode ser ouvido tendo atenção às guitarras e baixo, como tendo atenção à bateria. E poderemos ter uma audição do álbum bastante versátil e dinâmica. Quanto à voz – o Sr. Lord Worm é um colosso neste álbum. Consegue tonalidades muito interessantes e criativas, e roça o psicadelismo (tal como a bateria – reparem na tarola: é genial ouvir este álbum tendo como base a tarola; e se fizerem a comunhão da voz com a bateria, hão-de reparar na loucura destes canadianos). Quanto aos solos, eles são curtos e eficazes. Não há por aqui virtuosismo, mas há delicadeza (característica interessante para quem compõe um álbum de Death Metal com a categoria deste “Blasphemy Made Flesh”).

Um bom álbum para recordar e para conhecer. Decerto que os mais novos fãs de metal ficarão de queixo caído e pensarão se os Job For A Cowboy são brutais. Para eles e para todos nós, aqui fica a “Abigor”.

Post-Scriptum:
Os fãs de Death Metal têm razões para se sentirem orgulhosos por terem vivido uns anos de ouro para o Death Metal. “Blasphemy Made Flesh” ainda é um valente murro na cara mesmo passados estes anos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

THANATOSCHIZO - Schizo Level - 2001


THANATOSCHIZO
"Schizo Level"
2001

Já passaram sensivelmente nove anos desde a largada deste “Schizo Level” dos transmontanos ThanatoSchizo. E mesmo passados esses anos, este trabalho ainda deixa marca e dá cartas no seio do metal nacional e estrangeiro.
O meu regresso ao passado tem como causa a genialidade deste trabalho e da capacidade de nos envolver nas suas múltiplas facetas e ambientes. Porque tal como o nome do trabalho indica, aqui está apresentado num suporte artístico um ambiente esquizofrénico, com os seus altos e baixos (dependendo do ponto de vista) e com os seus momentos de caos e de harmonia.

“Schizo Level” abre com passos na areia ao som de um estranho trompete que anuncia o rasgar da lucidez para a abertura de um ciclo de esquizofrenia. “RAW” é a brutalidade deste álbum, com todos os instrumentos a descarregar momentos de Metal pesado. Tal como a voz gutural e rasgada que parece que parece que ultrapassa o limite do humano (talvez tenha sido esse o objectivo). “Suturn” é o seguimento lógico da “RAW”.
Mas o ambiente começa a mudar a partir da “Patheon (as in Strip-Tease)”, onde se ouve a harmonia de alguns instrumentos orientais, fazendo-nos recordar o seu Yin-Yang (símbolo que representa a dualidade de energias opostas: nocturno e diurno; por sua vez, este símbolo pode ter muito que ver com o conceito deste álbum dos ThanatoSchizo, não fosse o seu trabalho ter estes altos e baixos de caos e harmonia).
“Nightmares Within” mantém esse lado étnico ao som de uma flauta, ao mesmo tempo que anuncia uma estrutura musical que liga e dá consistência ao álbum todo.
“Cântico Negro” é a recitação perfeita do poema de José Régio (nem ele o poderia ter evocado tão bem), e que dá ainda mais consistência e argumento ao conceito de “Schizo Level”. Mas este trabalho é, para além da sua vanguarda no estilo Metal, um evocador do Doom Metal tal como se pode ouvir em praticamente todas as músicas, principalmente na “A Day... (Rebind of thy Restless Mess II)”.
O grupo manteve a postura e coragem para nos apresentar um riff que tresanda a Anathema no seu tempo de “The Silent Enigma” (para os mais velhos: digam lá se não se lembram da abertura do “The Silent Enigma” quando ouvirem esta música dos nossos transmontanos?). Mas esta observação não é, de longe, pejorativa; é, antes, o enaltecimento da banda por terem tido a coragem de se afirmarem com os seus gostos e influências em todos os níveis.
“Nausea” é, na minha opinião, o ponto alto do albúm. Uma música que tem o feeling se uma evocação, como se fosse um desafio ao divino (cortesia de William Shakespeare). Além disso, há uma comunhão perfeita (daquelas que arrepia) da guitara com a voz/texto. Ouçam e leiam:

"Be bloody, bold, and resolute; laugh to scorn
The power of man; for none of woman born
Shall harm...(Suturn)!
 
Come, you spirits
That tend me on mortal thoughts, unsex me here
And fill me from the crown to the toe top-full
Of direst cruelty. Make thick my blood;
Stop up the access and passage to remorse,
That no compunctious visitings of nature
Shake my fell purpose, nor keep peace between
The effect and it."
(Shakespeare's Macbeth)
 
A sickness inside of me
And inside of the world
And you?
You're above all that
Trying to mess all around
Because of your stupid pride.
And I hate it.
I hate it all.
I hate everything.
All...
 
O cilco termina com a “Weird Curse - Metamorphosis; The Return; The Nightmare After”. Inicialmente esquizofrénica com sons electrónicos, o álbum regressa ao início cujos passos na areia trazem melodia, paz e harmonia – para redescobrir sempre!

Post-Scriptim:
“Schizo Level” é um marco na história do Metal nacional. Foi um murro na cara a todos aqueles que pensavam que os Moonspell eram “a banda portuguesa”. ThanatoSchizo oferece com este trabalho uma abertura para sonoridades refrescantes, onde há um fio condutor que liga a melodia e o Doom/a harmonia e o caos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

AKPHAEZYA - "Anthology II: Links From The Dead Trinity" - 2008

 

AKPHAEZYA
“Anthology II: Links From The Dead Trinity”
2008

A relação que tenho com este trabalho dos franceses Akphaezya é de espanto e de enigmas, no qual me deparo a contornar esquinas e a caminhar por labirintos onde subitamente encontro sentidos e sentimentos que procurava sem saber o que procurava. Esta frase talvez seja a frase chave para ilustrar o que sinto quando ouço este trabalho. E a prova disso é que ele mereceu algumas escutas para que as minhas palavras fossem justas.

A primeira escuta foi um desastre: e senti uma monotonia e desinteresse enquanto me deixava levar pelos variados sons e texturas. Mas foi a variação de sons e texturas que me deram as pistas para me aventurar numa segunda viagem, como se fosse uma caça ao tesouro. E percebi que o som deste trabalho é chamativo e que puxa o ouvinte. Contudo, sinto que esse chamamento só é recíproco se o ouvinte se abrir com o trabalho; caso contrário fica apenas pela primeira viagem, monótona ou desinteressante; ou arrisca-se mesmo a ficar pelo meio e a praguejar a desfavor destes franceses (eu já vou na minha terceira viagem, mas também praguejei na minha primeira).

E o que podemos encontrar nesta viagem e nesses sons tão chamativos que eu ilustrei nas frases anteriores? O Metal é presença. Mas, este Metal é como um daemon, ou um intermediante que comunica com outras entidades (neste caso outros estilos). Esta posição faz-me pensar que o Metal é apenas o carril onde passa o que é importante – a fusão com os outros estilos. E podemos encontrar a leveza refrescante da Clássica, a esquizofrenia do Jazz, o exótico da étnica (seja parisiense com a sua concertina a dar o seu ar bizarro, seja médio-oriental que tão bem se funde com o Metal, e que nos faz mexer o corpo) e mesmo um ou outro ritmo latino e um cheiro de reggae. O leitor deve estar a pensar como soará esta caldeirada. Pois! É aqui que jaz ora a repulsa ora o chamamento dos enigmas. Porque apesar de parecer uma mixórdia, o álbum apresenta um fio condutor e por incrível que pareça não nos sentimos perdidos (pelo menos na segunda viagem).

No meio desta caldeirada é a vocalista/teclista que devemos aplaudir por ser tão versátil e conseguir contagiar o ouvinte com as suas mutações vocais. Claro que os restantes músicos são fantásticos, sem dúvida, e conseguiram trabalhar as músicas misturando os vários estilos mantendo sempre o factor cerebral. Tudo aqui denota inteligência. Mas, apesar de tudo, o “Anthology II: Links From The Dead Trinity” corre o risco de passar ao lado de muitos ouvintes por não ser um álbum imediato e exigir atenção e várias entregas e descobertas (fenómeno raro nestes tempos do imediato, da rapidez e da quantidade).

Resta-me, para finalizar, escrever sobre o conceito desta banda e do seu álbum de estreia.

Começo pelo nome da banda: AKPHAEZYA é o nome de um mundo numa era medieval, do qual apenas temos relatos de histórias e lendas. Esse mundo vem retratado no CD num mapa, para que fiquemos com uma imagem de como ele é. As personagens são, também, um factor importante para quem queira entender o trabalho conceptual dos Akphaezya. E de facto, se tiverem vontade de ler as letras podem notar o desenrolar que há entre as várias personagens.

Os leitores devem estar a questionar porque é que o álbum de estreia é o segundo de uma antologia. Segundo informações, o tempo em Akphaezya não é entendido do mesmo modo como o entendemos. E por isso, o sucessor do Anthology II será o Anthology V.

Para além de toda a imaginação e trabalho do mentor deste colectivo, devo salientar o artwork que acompanha a experiencia auditiva. Stephan H. destaca que Akphaezya pode ser apreciado pelas três vertentes artísticas: som, imagem e texto. Tal só denota que houve um grande trabalho por detrás do Anthology II. O guitarrista também sugere que a audição deste trabalho pode ser apreciada como um todo, ou simplesmente música a música. Isto porque cada musica conta uma história, e os ambientes criados em cada uma delas pretendem ilustrar os sentimentos de cada personagem; e por isso há muitas variações no instrumental e na voz, precisamente porque a história pede todas essas mutações. Talvez por isso não seja tão despropositado o uso de Jazz, por ser um estilo tão livre e louco.

Uma boa surpresa!
 
Fiquem com o vídeo da música “Botlle Of Lies”, que retrata a história (genialmente desenhada) contada nessa música.


Post-Scriptum:
O Metal tem a característica da facilidade de se fundir com outros estilos. Não significa que não tenha uma identidade; mas significa que também não é fechado em si mesmo. Akphaezya faz uma comunhão muito boa e decerto que atrairá tanto os fãs de Metal como os de Jazz. Contudo, creio que uma mente aberta é pré-requisito.